sexta-feira, 30 de março de 2012

Deus é um DJ (RJ)

Foto: Renato Mangolin

A perda de Richter

                Com toda a base pronta para ser uma comédia interessante, “Deus é um DJ” se torna uma comédia de costumes. Nada contra o gênero (não sejamos preconceituosos!), a proposta prometia mais. Também chamada de “comédia de boulevard” ou “comédia taça de champagne”, o gênero consiste em uma estrutura narrativa larga e rasa: muitos temas e pouca profundidade. Com uma numerosa plateia lotando o grande Teatro da Reitoria (Festival de Curitiba/PR), o casal de atores Marcos Damigo e Maria Ribeiro podem ter sido deixados levar pelo riso fácil da multidão: a encenação parece que saiu do foco original, entrando na batida discussão acerca do homem e da mulher, dos papéis no relacionamentos, da vida a dois nesse início de milênio, como bem faz qualquer adaptação teatral de livro de auto-ajuda a la Martha Medeiros e outros autores que escrevem sobre Marte e Vênus, etc. A peça mais famosa do dramaturgo alemão Falk Richter (1963), já traduzida para mais de trinta idiomas, foi escrita em 1998, um ano antes da primeira edição do BBB, quando o Brasil e o mundo engatinhavam na internet, seis anos antes do Orkut e do Facebook. E é a exploração do tema (ou dos temas) virtual versus atual ou possível versus real (ver Pierre Levy) que faz do texto ter a importância que ele tem por antecipar, nos anos noventa, a discussão tão própria dos dias de hoje.
                Um DJ e uma VJ vivem 24 horas por dia em um pequeno apartamento rodeado de câmeras. Em troca de dinheiro, eles vendem a própria imagem sob algumas condições e falar sempre a verdade está entre elas. Em volto às histórias nem sempre verdadeiras que eles criam para si próprios, há na proposta o conflito entre o DJ atual e o virtual, bem como a relação entre a VJ que existe e a que se mostra e, ainda, a convivência inevitável entre os dois. O palco está sendo organizado quando o público entra. Os atores interagem com a plateia como se fossem parte dela e a plateia, por sua vez, com os atores livremente. Em cena, Damigo e Ribeiro operam a luz e a trilha sonora eles mesmos e, quem já assistiu mais de uma vez, garante que o que é dito no palco é diferente do que foi dito em apresentações anteriores. O possível está potente, latente, almejando concretizar-se e, assim, ser real. O conteúdo de Richter ganha forma na concepção de Marcelo Rubens Paiva, diretor que aqui está em seu quarto trabalho. No entanto, o resultado carece de firmeza. Sendo talvez o excesso de interação com o público, que se sente confortável vendo os limites entre o palco e a plateia serem apagados quase que totalmente, ou a relação estabelecida da peça com o ideário teatro-não-teatro, o fato é que, desde a primeira vez que Ela menciona que o casal faz sexo apenas uma vez por mês, os temas corriqueiros da vida conjugal dominam o discurso até o final da peça muito valorizados. As câmeras, as luzes, o ciclorama, tudo passa a ser mera ilustração a partir desse ponto infelizmente.
                Marcos Damigo apresenta um trabalho bastante superior ao de Maria Ribeiro (o que não significa que ele seja melhor ator que ela). Ágil, voraz, intenso, o personagem do DJ é mostrado em diversos níveis corporais, com elasticidade e pontualidade, com profundidade e superficialidade, com ironia e com segurança. A dicção é perfeita, a relação do público é conquistada, o carisma é conseqüência. Maria Ribeiro não tem as mesmas oportunidades e, quando as têm, não expõe a mesma técnica nem corporal, nem vocal. Empostada, a sua voz oferece apenas dois tons ao público: o alto e o baixo, de forma que, ao longo da encenação, em vários momentos, seu discurso oral é monótono porque monotonal. Da mesma forma, falta à personagem, em relação ao seu antagonista, mais movimento, mais versatilidade, maior riqueza. Sem dúvida, o desequilíbrio nos trabalhos de interpretação também são amostras de uma direção menos firme do que deveria.
                A cenografia de Ana Kalil providencia riqueza pelo vasto universo de possibilidades que ela proporciona. Desde funcionais estantes cheias de aparelhos até blocos brancos cujos espaços nem sempre são vistos, passam por aí elementos apenas ilustrativos e outros bastante úteis em relação à construção do universo semântico do espetáculo (e o fogão com panelas é um ótimo exemplo do último). Nesse sentido, a análise observa que o não feito, aquilo que não aconteceu, as coisas dispostas mas não utilizadas são opões "a mais", isto é, são marcas de reflexão sobre o possível e o real, sobre o virtual e o atual, sobre o vir-a-ser. O mesmo vale para a iluminação de Tomás Ribas. Não havendo operador, é como se o iluminador disponibilizasse os equipamentos para os personagens e deixasse em suas mãos a opção de usar ou não usar a seu prazer. No “não usar”, está o possível, o que, talvez, foi visto em outras apresentações e/ou será nas próximas, o que deixa ver a originalidade e a unicidade dessa única apresentação (teatral). Tudo isso é prova de uma concepção estética bastante inteligente e, por isso, louvável.
                Com méritos, a apresentação para o grande público parece ter providenciado maiores desafios do que o esperado. Em uma produção em que os dois atores se expõem a níveis tão elevados, vale recordar da segurança para que não se perca o rumo. “Não há vento favorável a quem não sabe a quem porto se dirige” (ou parece não saber) ainda é uma máxima a ser cogitada. Valei-lhes, Richter!

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Ficha técnica:

Texto Falk Richter
Tradução Annette Ramershoven e Marcelo Rubens Paiva
Direção Marcelo Rubens Paiva
Elenco Marcos Damigo e Maria Ribeiro
Assistência de direção e stand-in Isabel Mello
Preparação vocal Maria Sílvia Siqueira Campos
Consultoria de arte e linguagem Alexandre Nino
Cenografia Ana Kalil
Cenotécnica André Salles
Criação das obras “Molas – Death Valley” e “Incorpóreos” Vicente de Mello
Criação da estação do DJ Bruno Jacomino
Direção musical e sonoplastia Nado Leal
Iluminação Tomás Ribas
Assistência de iluminação PC
Fotografia Vicente de Mello
Assistência de fotografia Rafael Adorján
Identidade visual e vídeos Breno Pineschi e Rafael Cazes – Hardcuore
Assistência de programação visual Robson Tomate
Assistência de webdesign Guilherme Maquieira
Assistência de fotografia e vídeos Ricardo Aleixo
Figurino OEstúdio
Visagismo Bruno Fattori
Direção de produção João Braune e Carla Mullulo – Fomenta
Produção executiva Arilson Lucas – Fomenta
Assistência de produção Fernanda Carvalho – Fomenta
Direção de palco Ney Silveira e Max Magalhães
Contrarregragem Léo Gama
Técnica de som e vídeo Maninho
Comunicação e marketing Renato Saraiva
Gestão de apoios culturais Gheu Tibério
Assistência de gestão de apoios culturais Adriana Albuquerque
Assessoria jurídica BACBB Advocacia
Consultoria de projeto Tatiana Richard – Rizoma
Assistência de consultoria de projeto Deborah Balthazar
Coordenação executiva Renato Saraiva
Assistência de coordenação executiva Pedro Paiva
Idealização e coordenação artística Marcos Damigo
Realização Marcos Damigo e Renato Saraiva

2 comentários:

  1. coisa mais chata que já vi.
    uma bagunça tediosa.

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  2. HORRIVEL

    porcaria saí antes de terminar

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