sábado, 13 de junho de 2020

12 pessoas com raiva (RJ)


Print da tela com os atores em cena
Excelência na quarentena

Entre todos os zilhões de conteúdos que estão sendo produzidos para a internet nesses três meses de isolamento social, “12 pessoas com raiva” é certamente uma das melhores opções. Trata-se de uma inteligente, tocante e oportuna oferta de experiência teatral em um momento no Sudeste brasileiro em que teatros, cinemas, bibliotecas, museus e galerias estão fechados. O Pandêmica Coletivo Temporário de Criação, que assina a produção do momento, merece toda a atenção por esse trabalho, em especial, o cearense radicado no Rio de Janeiro Juracy de Oliveira. Para assistir gratuitamente, e participar dessa linda experiência, é preciso acompanhar o perfil no Instagram ou no Facebook @pandemicacoletivo e também fazer o download (no celular ou no computador) do aplicativo ZOOM. Nas páginas do grupo, também constam informações sobre como fazer doações espontâneas para colaborar financeiramente com esses artistas em brilhantes atuações. (Abaixo, nesse texto, mais informações para embasar essa opinião, mas sem spoilers.) 

Sobre o que é 
A dúvida sobre o que é “12 pessoas com raiva” é, com certeza, a coisa menos importante. É teatro? É cinema? É TV? É laive? Para a crítica teatral, obviamente, interessa a teatralidade da experiência, mas esse valor, sem dúvida, é apenas um entre tantos desse conteúdo que o Pandêmica Coletivo oferece. A experiência é (também) teatral, porque claramente parte de um princípio estético de rito coletivo, esse que é similar ao que tradicionalmente o teatro proporciona. Diferente de um teatro filmado, os atores estão em frente às suas câmeras, naquele momento, enviando suas imagens ao mesmo tempo em que o público está em frente às suas telas assistindo. Qual é a diferença disso para a televisão antes da popularização do videotape (no Brasil, pela TV Excelsior, em 1960) ou durante as mais modernas experiências de interatividade (telejornais ao vivo e realities shows)? A consciência de grupo. Os dados de televisão são enviados ao público através de ondas eletromagnéticas difíceis de serem controladas. Em outras palavras, quem faz TV não tem a exata noção de quem lha assiste, e quem assiste não se reconhece como grupo (finais de novela e de copas do mundo sãõ exceções à regra). Porém, no caso de “12 pessoas com raiva”, o público é limitado. Quem está assistindo se sabe, antes de tudo, como parte de um pequeno grupo da espécie humana que se une por um motivo específico: ver outros seres da mesma espécie criar algo único, particular e irrepetível. Aliás, esse motivo de encontro é também a diferença entre teatro e igreja. No segundo, vai-se em busca do encontro com o divino. No primeiro, em busca de si na parte do outro que não é o outro. 

“12 pessoas com raiva” é uma adaptação de Juracy de Oliveira para a peça “Twelve angry man”, escrita pelo roteirista americano Reginald Rose (1920-2002) em 1954. Em primeira oportunidade, o texto foi veiculado como um programa de teleteatro da emissora CBS, mas o enorme sucesso acabou fazendo com que várias outras adaptações surgissem. O rádio, o teatro e o cinema estão entre elas. O casal Ana e Mario José Paz assinaram a primeira versão oficial do texto no teatro brasileiro numa elogiadíssima montagem paulista de 2010 que foi dirigida por Eduardo Tolentino de Araújo. (A crítica dessa montagem também está aqui à sua disposição.) O enredo é mecanicamente simples: doze jurados se trancam uma sala para ratificar a condenação à morte de um rapaz acusado de ter matado o próprio pai. O problema é que, pela lei vigente naquele lugar, a condenação à morte precisa ser por unanimidade, e um dos jurados resolve ter dúvidas. Por fim, assiste-se a uma excelente dramaturgia sobre os valores sociais no ocidente contemporâneo, uma discussão que, há 65 anos, ainda parece muito atual e cada vez mais oportuna. 

A adaptação de Juracy de Oliveira tem o enorme mérito de atualizar a obra de Rose, dando-lhe frescor sem desmerecê-la. Na experiência tradicionalmente teatral, o longo texto garante uma sensação de sufocamento a que a aventura virtual dificilmente sobrevive. A montagem de quase 90 minutos do Pandêmica Coletivo merece os melhores elogios por partir de um ambiente facilmente desconectável, mas aprofundar-se por um evento positivamente claustrofóbico. Em outras palavras, embora seja fácil estar nominalmente vinculado a várias laives, é difícil realmente concentrar-se por muito tempo a alguma em específico. “12 pessoas com raiva” prende a gente, em excelente ritmo, tamanho o modo cada personagem é capaz de mudar a narrativa diante do abismo. As escolhas estéticas feitas pelo Coletivo na adaptação são tão meritosas quanto o texto original, mesmo que por vias diferentes. 

Excelentes escolhas estéticas 
Quanto às escolhas estéticas de “12 pessoas com raiva”, pode-se começar pela qualidade do som e da imagem, esses aspectos que mediam a relação entre o público e os artistas na cena virtual. As variações de qualidade da imagem e do som, os enquadramentos, os movimentos de câmera, a decupagem do todo e de cada parte, tudo isso se alia a um conceito muito notório de criação de uma aparente realidade. Como preâmbulo, o diretor Juracy de Oliveira apresenta o projeto e instrui como experimentar o aplicativo ZOOM através do qual se assistirá ao conteúdo. Então, desde aí, se percebe que os travamentos, as sujeiras de vídeo e de áudio, que as marcas identitárias da experiência “reunião virtual” não são desprezadas, mas aproveitadas. O Pandêmica Coletivo não quer fazer um “teatro filmado”, mas parece querer teatralizar uma ferramenta popular (e útil) em tempos de pandemia. Essa sagacidade é o primeiro mérito. 

Há também, como mérito, o casting. Doze atores participam da proposta interpretando os doze jurados: Nely Coelho (01), Ralph Duccini (02), Gilson de Barros (03), Giovanna Araújo (04), Maurício Lima (05), Gabrielly Arcas (06), José Henrique Ligabue (07), Tatiana Henrique (08), Múcia Teixeira (09), Leandro Vieira (10), Ênio Cavalcante (11) e Mariana Queiroz (12). Quando todos entram na “sala”, vê-se de início que trata-se de pessoas com sotaques diferentes, cores de pele diferentes, idades, gêneros, estéticas diferentes. O fundo de cada tela também é bem variado. No todo do quadro, a pluralidade da informação exibe a riqueza daquilo que o antropólogo Roberto DaMatta diz ser Brasil. No teatro, existe uma condição que é a democracia do olhar. Em “Twelve Angry Man”, vemos todos os atores inteiros ao mesmo tempo e é o olhar do público que escolhe quem e como quer ver e em que tempo. Na versão do Pandêmica, como no texto e no teatro, há destaques para uns jurados em detrimento de outros pela narrativa, mas, na tela, todo mundo tem o mesmo espaço. E escolher por manter isso é outro mérito estético da proposta. 

Há ainda outro mérito dessa nova dramaturgia, que são as referências ao tempo presente. O Jurado 07 cita o campeonato futebolístico da Libertadores da América, o 02 traz a hora atual da apresentação, 08 apresenta uma tela do site Mercado Livre, entre outros exemplos. Essas marcas de realidade garantem a experiência teatral e dão força positiva à aventura. 

Imperdível 
No campo das atuações, Tatiana Henrique (08) e Gilson de Barros (03), como opostos, se destacam aproveitando as muitas ofertas que o texto já lhes oferece. Ambos são as bases de apoio de todo o conteúdo. Muitas vezes, fazer um bom personagem é um desafio para um ator pelo risco de sucumbir ao brilho da figura. Isso não acontece aqui felizmente. Barros e Henrique não parecem estar satisfeitos com o muito que seus personagens já trazem e os exploram ainda mais. Há verve, presença, há força. Nas zonas mais neutras da dramaturgia, há ótimos e bons trabalhos, mas não há qualquer um que seja ruim. Múcia Teixeira (09) e Ralph Duccini (02), por exemplo, têm participações mais apagadas nos diálogos, mas é bastante interessante reparar o modo como seus silêncios parecem conservar uma força pulsante na tela. José Henrique Ligabue (07) e Maurício Lima (05) têm presenças muito marcantes, trazendo frieza de um lado e emoção de outro em ótimo equilíbrio de forças. 

Dentre as boas lembranças que esse período de quarentena pode trazer, “12 pessoas com raiva” está em lugar de grande e positivo destaque. Pela qualidade das atuações, pelos méritos da direção e da adaptação, pela força e atualidade do texto, a oportunidade é rica em reflexões, mas ainda mais marcante pelas emoções que provoca. Imperdível. 

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Ficha técnica:
Idealização, Adaptação e Direção Geral: Juracy de Oliveira
Direção de Arte e Figurino: Luiza Fardin
Elenco: Enio Cavalcante, Gabrielly Arcas, Gilson de Barros, Giovanna Araújo, José Henrique Ligabue, Leandro Vieira, Mariana Queiroz, Maurício Lima, Múcia Teixeira, Nely Coelho, Ralph Duccini e Tatiana Henrique.

Link liberado às 15h45 no perfil @pandemicacoletivo e no grupo público de whatsapp cujo link está na bio do mesmo perfil.

Classificação Etária: 12 anos.
Duração: 75 minutos.
Lotação: 100 pessoas.

sexta-feira, 13 de março de 2020

O Quintal do Manoel (RJ)

Foto: Fábio Fortes

Renata Egger e Amaury Lorenzo


Muitos problemas nesse quintal do Manoel de Barros

Com muitos problemas, espetáculo “O Quintal do Manoel” estreou no pátio do Museu de Arte Contemporânea – MAC/Niterói no último domingo e vai até o final de março com sessões aos domingos pela manhã. Boa parte dos entraves da encenação exibe a falta de investimento dos grupos fluminenses na estética do Teatro de Rua / Teatro na Rua, essa já relativamente sólida em outras regiões do país inclusive com boa literatura teórica a respeito. Dirigido por Fábio Fortes, o texto é inspirado na obra do saudoso poeta mato-grossense Manoel de Barros (1916-2014) e tem interpretações de Luan Vieira, Renata Egger e de Amaury Lorenzo, esse último em excelente contribuição. A Direção de Arte de Eric Fully é o melhor aspecto desse projeto construído como resposta à elogiável Chamada Pública para Teatro em Novos Espaços, essa promovida pela Prefeitura Municipal de Niterói por meio da Secretaria Municipal das Culturas e da Fundação de Arte de Niterói.

Concepção cheia de buracos
Independentemente de qualquer outra avaliação, uma obra lírica como a de Manoel de Barros já impõe tantos desafios quanto liberdades a quem for adaptar para a linguagem cênica. Nesse sentido, o texto de Simone Bibian já enfrentaria a difícil responsabilidade de conectar as palavras do poema com a presença viva da plateia por meio de atores fosse de qualquer modo. O grande problema em termos de dramaturgia no caso de “O Quintal do Manoel” é que o texto não chegou, na sessão de estreia, ao público. Sabe-se que há três personagens – Avoada (Renata Egger), Bocó (Luan Vieira) e Inventador (Amaury Lorenzo) – e que a coisa toda gira em torno da potencialidade que há na imaginação de se transformar algo (uma caneta, por exemplo) em outro algo (um avião). Fora isso, chegam apenas informações soltas que poderiam até configurar um arcabouço estético interessante se não fosse notório o esforço dos atores em relação ao seu insucesso na empreitada. É uma pena.

Em tudo, há problemas na direção de Fábio Fortes a começar pela movimentação do elenco e da própria cena no espaço do MAC. É possível imaginar que talvez tenha havido a intenção de criar a sensação de que a abordagem estética venha do nada e ao nada vai. Ou talvez, em oposição, Fortes tenha tido dificuldade de lidar com o reflexões acerca da Caixa Preta / do Cubo Branco, que muitos grupos de Teatro de Rua resolvem com a criação da roda – uma delimitação programada por meio do qual o público reconhece onde é espaço cênico e onde não é. (Aliás, os próprios conceitos de Espaço Cênico e de Lugar Cênico são valiosos nessa construção!) O muito aparente porém é que não se trata de uma opção estética, mas de um problema mal resolvido de concepção: pela Direção de Arte, pela Trilha Sonora e pelos resquícios de Dramaturgia, o espetáculo se impõe à paisagem apesar da movimentação talvez almejar, na melhor das hipóteses, a invisibilidade.

Do mesmo modo, os problemas de concepção se revelam nas prosódias dos intérpretes. Se, no Teatro de Sala, há um acordo tácito entre público e atores que se pautam pelo silêncio de um diante da fala do outro, isso praticamente não acontece em Teatro de Rua / Teatro na Rua. A Rua não é um espaço controlável: os carros não param de passar, o tempo muda, os ambulantes gritam, a própria paisagem do MAC é um espetáculo à parte. Além disso, a duração da audiência não tem equiparidade com a duração do espetáculo: as pessoas só ficam diante do espetáculo enquanto podem ou lhes interessam, motivos esses por demais fluídos. Então, os recursos de convencimento dos intérpretes para manter a audiência são completamente diferentes. Renata Egger e Luan Vieira, em “O Quintal do Manoel”, põem a jogo a altura da voz, mas isso está longe de bastar. Por outro lado, Amaury Lorenzo balança a informação para todos e a informação da conversa particular e aposta meritosamente nas inflexões. Resultado? Seus personagens acabam por ser muito mais interessantes do que o de seus colegas e pautam, em consequência, assim, a maior parte toda a hierarquia de valores da encenação em enorme desequilíbrio.

Há ainda investimentos estéticos de ordens diversas, o que revela o pouco hábito de Fábio Fortes com a linguagem. É impossível pensar trilha sonora para um espetáculo no domingo de manhã no MAC como se estivesse decidindo uma trilha para o interior de um lugar reservado. Uma caixa de som com música incidental trava um duelo invencível com os sons naturais. Há que se considerar, por outra via, que a presença de um som artificial representa uma perda inestimável de possibilidades performativas ao elenco. Assim como o texto na dramaturgia, a música na trilha são valores jogados fora aqui.


Luan Vieira

O valor da aventura
O melhor elemento da construção estética de “O Quintal do Manoel” é a Direção de Arte de Eric Fully. Desde às cores até as texturas, em tudo, cenário e figurino foram visivelmente pensados para o espaço e para o momento da encenação. Quem está acompanhando o quadro de longe tem algumas percepções. Quem está vendo e ouvindo tudo desde muito pertinho (tocando inclusive nos atores) percebe outros detalhes. E todo esse balanço é muito positivo. Em termos visuais, o espetáculo chama a atenção e a sustenta positivamente com seus méritos.

Há que se considerar no aplauso a coragem da F2 Produções Artísticas e da Cambará LTDA em produzir tal experimento e da Prefeitura Municipal de Niterói em valorizar os fazeres de seus artistas. Sem fazer, nem os artistas crescem, nem o público toma contato com a experiência, nem os pensadores têm desafios a enfrentar. Aventurar-se é muito positivo. E Manoel de Barros sempre
merece atenção.

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Ficha técnica:
Texto: Simone Bibian
Direção: Fábio Fortes
Elenco: Amaury Lorenzo, Luan Vieira e Renata Egger
Trilha Sonora: Sérgio Lobato
Direção de Arte: Eric Fully
Assistente de Direção de Arte: Beatriz Gonçalves, Bikahlo e Vivan Carla.
Assistente de Produção: Rodrigo Sundin
Programação Visual: Érika Villas Bôas
Fotos: Fábio Fortes
Produção: F2 Produções Artísticas e Cambará LTDA.

Leopoldina, independência e morte (SP)


Foto: divulgação
Sara Antunes e Plínio Soares

Sucesso de público: a oportunidade Dona Leopoldina

O bom espetáculo “Leopoldina, independência e morte” está agora em cartaz no delicioso Teatro Petra Gold, no Leblon, onde fica até o fim de março. A peça vem completando temporadas cheias de sucesso no Brasil desde maio de 2018, vencendo batalhas difíceis no cenário cultural do país. Um dos motivos para isso pode ser o largo carisma de Dona Leopoldina, personagem que oferece uma rica oportunidade de conciliar “gregos e troianos”. Na narrativa, Sara Antunes defende com força a primeira imperatriz do Brasil em três momentos de sua vida. É interessante assistir ao trabalho idealizado, escrito e dirigido por Marcos Damigo, mas mais ainda refletir sobre ele.

Um herói por outro: sentimento sobreposto à razão
A grande questão da dramaturgia é que, por meio dela, a peça reclama o heroísmo mítico de Dom Pedro I em favor de Dona Leopoldina no processo da Independência do Brasil. Em outras palavras, escrito por Marcos Damigo, o texto de “Leopoldina, independência ou morte” quer substituir um herói pelo outro sem questionar o heroísmo em si. E é nesse esforço que talvez se possa justificar a melhor parte do sucesso desse aparentemente modesto espetáculo.

O texto é inspirado no ensaio “Cartas de uma imperatriz”, da psicanalista Maria Rita Kehl, e tem realização sob consultoria do historiador especialista Paulo Rezzutti, autor de “Dona Leopoldina, uma história não contada”. No entanto, a tese de que a Imperatriz Dona Leopoldina é “a verdadeira articuladora da Independência” é original. Os registros históricos, em que está inclusa a correspondência da Imperatriz, não apontam para a existência de um articulador, mas para a confluência de um conjunto de fatores que desembocaram na separação política legal do Brasil em relação a Portugal em meados de setembro de 1822. A localização como herói de Dom Pedro I ou a de José Bonifácio é simplista como também a de Dona Leopoldina. E é no simplismo que se encontram os maiores sucessos comerciais no campo do entretenimento. “Leopoldina, independência ou morte” tem diálogo valoroso com o grande público. E isso está longe de ser um desmérito.

O maior mérito da dramaturgia de Marcos Damigo nesse espetáculo é o efeito emotivo que a peça causa no público. De um lado, agarrada à valorização feminista da posição da mulher; e, de outro, apegada à tese conservadora do mito monárquico conservador e da Grande Mãe do Brasil, a plateia lotada adia a reflexão. No lugar da razão, vem um sentimento contagiante de humanidade em defesa da mulher e de patriotismo em luta contra a corrupção. O sentimento é legítimo e a opção por ele no lugar da razão tem que ser valorizada para além de qualquer gosto em contrário.

O romantismo no espetáculo
Sara Antunes

Dividida em quatro partes, a peça “Leopoldina, independência ou morte” está organizada em três momentos cronológicos da vida da Imperatriz Dona Leopoldina. De início, o público está diante da personagem por volta de 1819, menos de dois anos depois de sua chegada ao Brasil vinda da Áustria. Depois, há encontro com sua maturidade em uma audiência entre ela e o político José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838). Por fim, sucedem-se dois quadros: solilóquios mais ou menos com razão e delírio nos dias finais de sua vida (1826) e palavras dirigidas diretamente ao público com referências à atualidade. Todos esses trechos são construídos ficcionalmente com vistas ao despertar da emoção. E tudo isso está na peça bem à moda romântica, estética essa que a real Leopoldina havia visto florescer, na Áustria, no pós-classicismo de Beethoven, de Haydin e de Goethe. É assim, pelo apoiar-se às emoções, que o texto de Damigo se viabiliza organicamente na cena dirigida por ele próprio com colaboração de Lucas Brandão.

Da ingênua jovialidade da princesa austríaca em oposição à velhice carcomida da barroca corte portuguesa no Brasil, a peça se embrenha por um jogo político de ideias em um tabuleiro de xadrez. A trilha sonora de Ana Eliza Colomar e de Nivaldo Godoy Junior acompanha esse movimento: floreado na primeira parte e mais sóbrio na sequência. Em gesto coerente, o cenário de Renato Bolelli Rebouças e o figurino de Cássio Brasil se transformam de um jardim vistoso e de uma toillette retocada para um boudoir suado e um vestido encardido (com Bonifácio em um fraque acetinado grosseiramente amassado). Nos trechos finais, o desenho de luz de Aline Santini abandona a amplitude descritiva e participa do texto alçando a protagonista para destaque, de onde ela vaticina verdades e maldições no ponto alto de seu trágico discurso. Rebouças e Brasil deixam ver o caos e, na música, surge irônica participação do “Hino Imperial do Brasil” (hoje Hino da Independência), que foi composto por Dom Pedro I, o Jasão de quem essa Medeia fala mal. Em ritmo contorcido aparentemente complexo, todos os pontos se ligam em um conceito único na direção elogiável de Damigo e de Brandão.

As interpretações de Plínio Soares (José Bonifácio) e principalmente de Sara Antunes deixam ver mais esforço que intenção. O diagnóstico fica pior se se considerar a longevidade da produção (Soares ocupa o lugar de Jocca Andreazza, que estreou o personagem no lançamento da peça). Há um exagerado uso das mãos, com gestos acompanhando as palavras, que permanece alto durante toda a peça linearmente. As dicções são ótimas (nada se perde!), o que é bem positivo, mas quase não há investimento em entonações e em expressões faciais mesmo que quase dois anos desde a estreia. Eis bom trabalho, mas pouco relevante.

Produção de sucesso
A Palimpsesto Produções Artísticas, que produz “Leopoldina, independência ou morte”, merece aplausos pela qualidade de sua produção. Tornar uma proposta altamente comunicável sem se rebaixar ao nível do pastelão ou do stand-up comedy, é, hoje em dia, cada vez mais meritoso. Qualquer debate sobre a natureza desse trabalho vem depois do reconhecimento das dificuldades que esse intento dribla. Que o calor do público mantenha acesa essa chama.

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FICHA TÉCNICA
texto, direção e idealização: Marcos Damigo
codireção: Lucas Brandão
elenco: Sara Antunes e Plínio Soares
música ao vivo: flauta e cello por Ana Eliza Colomar
colaboração artística: Fabiana Gugli, Tarina Quelho e Joca Andreazza
cenário: Renato Bolelli Rebouças
assistente de cenografia: Amanda Vieira
figurino: Cássio Brasil
assistente de figurinos: Daniela Tocci
trilha sonora: Ana Eliza Colomar e Nivaldo Godoy Junior
desenho de luz: Aline Santini
assistente de direção: Laura Salerno
consultor histórico: Paulo Rezzutti
artes visuais: Priscila Lopes
design gráfico: Ramon Ribeiro
foto divulgação: Maíra Barillo
video: João F Maciel
comunicação: Agência Fervo - Priscila Cotta
produção local RJ: Reprodutora
produção executiva RJ: Gabriel Bortolini
coordenador de produção RJ: Luiz Schiavinato Valente
operação de luz e projeção RJ: Lara Cunha
contrarregra e camareira RJ: Sonia Oliveira
direção de produção: Fernanda Moura
assistente de produção: Fernanda Ramos
assessoria administrativa e jurídica: Mariana de Castro
assistente contábil: Anna Laura
contabilidade: Andrade & Associados
assistente contábil: Anna Laura Soeira
produção e administração: Palimpsesto Produções Artísticas - Fernanda Moura
patrocínio: Banco do Brasil
realização: Centro Cultural do Banco do Brasil
assessoria de imprensa RJ: JSPontes Comunicação - João Pontes e Stella Stephany