sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

A cor púrpura (RJ)

Foto: divulgação




As várias e potentes cores de "A cor púrpura": um musical que deve ser visto

    
    Estreou ontem, dia 20 de janeiro de 2022, a quarta temporada oficial do musical "A cor púrpura" no Teatro Riachuelo, no centro do Rio de Janeiro. Produzida por Eduardo Bakr e por Norma Thiré, a peça lindamente dirigida por Tadeu Aguiar, assistido por Flavia Rinaldi, já fez outras temporadas: uma no Rio de Janeiro e duas em São Paulo, tendo estreado em setembro de 2019. Com roteiro original de Marsha Norman e músicas de Brenda Russell, Allee Willis e Stephan Bray, essa boa versão brasileira é assinada por Artur Xexéu (1951-2021). No elenco, participam Hannah Lima, Thór Junior, Léo Araújo, Caio Giovani, Gabriel Vicente, Jorge Maya, Renato Caetano, Merícia Cassiano, Erika Afonso, Ester Freitas, Flavia Santana, mas brilham exuberantemente Analu Pimenta, Suzana Santana e Alan Rocha. Wladimir Pinheiro, está, mais uma vez, em excelente atuação, sendo o grande destaque desta montagem. Letícia Soares, como a protagonista Celie, oferece uma vigorosa contribuição musical, imprimindo enorme força ao conjunto, mas deixa a desejar infelizmente como intérprete. O cenário de Natália Lana, o figurino de Ney Madeira e Dani Vidal, a direção de Tony Luchesi e o desenho de luz de Rogério Witgen também são aspectos valorosos da produção que ficará em cartaz até o dia 20 de fevereiro. Vale a pena ler o belíssimo livro de Alice Walker e também assistir ao filme de Steven Spielberg, mas nenhuma dessas atualizações anteriores atrapalham a fruição desse espetáculo teatral que belamente abre o ano de 2022. Sobre seus aspectos mais profundos, falar-se-á nos parágrafos vindouros.


As bases da narrativa

    "Não me sinto tão velha assim. Sou jovem e a vida começou." Essas frases são o centro - o início, o meio e/ou o fim - do livro "A cor púrpura" e também do musical que o adapta para a linguagem do teatro musical americano. São nelas, que tudo o que será dito nessa análise se apoiará ao dedicar-lhe elogios e também refletir sobre pontos que talvez não tenham tanto mérito quanto os demais. O livro, o filme e a peça têm a mesma narrativa, mas são fruições diferentes e aqui, em oportunidade mais longa, podemos nos dedicar à análise delas.

    

Prêmio Pulitzer de 1983, o quinto livro da americana Alice Walker (foto) é tido como a principal obra do empoderamento feminino preto do século XX nos Estados Unidos. Trata-se de um romance epistolar que alçou a autora e toda uma comunidade mundial a um lugar de merecido destaque. É uma leitura recomendável que está disponível aos brasileiros de novo, depois de quase vinte anos, através de uma bela nova tradução da Editora José Olympio. Li e tenho as duas versões e reconheço a sua força, mas desprezo as críticas que ela recebeu sobretudo na época em que o original foi lançado. Destaco a quem for lê-la o forte teor impressionista do romance. O leitor vê o mundo da protagonista através principalmente dos olhos dela e acompanha, a partir de dentro, a transformação desse universo, mas também desse olhar.

    Já o belíssimo filme lançado no finalzinho de 1985 oferece outra perspectiva. Em relação ao livro e à peça, o espectador verá pontos importantizados e outros diminuídos, como, por exemplo, a questão da homo ou bissexualidade. (Algo muito semelhante a isso aconteceu na versão cinematográfica do musical "Cabaret" quando saiu do palco e foi pras telas.) O filme não é impressionista, mas realista naturalista, oferecendo uma abordagem mais ampla do todo sobretudo dos personagens coadjuvantes e do quanto eles e o meio em que vivem participam da trajetória de transformação uns dos outros. Alice Walker e o grande compositor americano Quincy Jones participaram ativamente de todas as escolhas estéticas, desde a escalação do elenco, passando pelo roteiro, pela direção de fotografia e pela direção de arte até chegar à intepretação dos atores, tripartindo os méritos com Spielberg. Whoopi Goldberg era uma atriz novaiorquina que tinha feito muito teatro na Alemanha e que brilhava em um stand-up comedy na Broadway quando foi escolhida por Walker para o papel protagonista. Ophra Winfrey era uma radialista de sucesso local quando foi escalada por Jones para o papel de Sofia. A cantora Tina Turner era a escolha de Spielberg para Shug Avery, mas negou o papel dando acesso a Margaret Avery, que, apesar da brilhante atuação, nunca mais chegou a ter alguma chance mais relevante. Na 58a edição do Oscar, "A cor púrpura" ganhou incríveis 11 indicações, mas inacreditavelmente não levou qualquer prêmio, tendo sido acusada de uma obra melosa demais, estereotipada demais. Goldberg seria a 1a atriz preta a ganhar o Oscar de Melhor Atriz na história, coisa que só foi acontecer com Halle Berry em 2002. Hoje em dia, o fato só evidencia o racismo estrutural que existia e existe em nossa sociedade.

    A versão para teatro de "The color purple" deve-se ao empenho de Oprah Winfrey a dar longevidade à narrativa. Produzida por um grupo de teatro de Atlanta, na Geórgia, em 2004, a peça foi à Broadway em 2005 graças à fama (aos muitos dólares) e ao prestígio de Oprah, pois tinha sido escrita, composta, dirigida e era interpretada por atores desconhecidos em Manhattan. Caiu nas graças do público, ficando em cartaz até 2008, mas teve críticas muito semelhantes ao filme. Na 60a edição do Tony Award, o musical "The color purple" foi indicado a 11 categorias, perdendo para uma bogagem chamada "The Drowsy Chaperone", que ganhou 13. Ao final da cerimônia, "A cor púrpura" venceu apenas um prêmio: o de melhor atriz para a grande LaChanze (foto), que brilhantemente interpretou Celie e nunca mais outro grande papel. Em 2015, Oprah produziu uma nova versão que, embora não tenha feito a metade do sucesso de público da anterior, foi melhor reconhecida pela crítica. Na 70a edição do Tony Award, ano em que "Hamilton" explodiu com 16 indicações (e 11 troféus), "The color purple", como um revival que não concorre com as peças estreantes, levou 4 indicações e venceu em duas: Melhor Atriz para Cynthia Erivo e Melhor Espetáculo Remontado. Nessa montagem, Shug Avery foi interpretada por Jennifer Hudson, que havia ganhado, nove anos antes, o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante (estranhamente) por ter interpretado a protagonista do filme musical "Dreamgirls".

    O musical "A cor púrpura", mais que o livro e bem mais que o filme, resgata de maneira muito substancial o aspecto religioso da obra. Toda a peça, do início ao fim, fala de Deus, ou melhor, de como nós nos comunicamos com a figura misteriosa divinal. E, a partir daí, finalmente, poderemos chegar a como a narrativa é oportunizada.

    O grande mérito da história é que não há apenas curva na protagonista, mas também em outros personagens menores. A narrativa se passa na primeira metade do século XX no sul dos Estados Unidos, no seio de uma comunidade negra evangélica e muito tradicional. Nessa localidade, os personagens reproduzem, em suas relações interpessoais, os mesmos preconceitos entre si que sofrem enquanto grupo em oposição aos brancos opressores. Então, em superfície, ainda que quase todos os personagens sejam pretos, vemos racismo, misoginia, pedofilia e outros males de toda ordem. Vítima de estupro, Celie teve dois filhos com seu próprio pai e o viu fazer ambas crianças desaparecerem. Depois, foi praticamente vendida a um outro fazendeiro, o Mister Albert, que, na verdade, estava sexualmente interessado em Nettie, tida como a irmã "mais bonita" de Celie. O viúvo Albert, pai de cinco filhos, era um homem rejeitado por seu próprio pai. Essa rejeição aconteceu em função de sua relação amorosa com a cantora Shug Avery, vista por todos da comunidade, incluindo seu próprio pai, o pastor local, como uma mulher "de vida fácil", por ter tido vários filhos e nunca ter se casado. Nettie, fugindo de ser estuprada também pelo pai, vai para a casa de Albert e Celie, mas lá é perseguida pelo primeiro e é assim que as irmãs Celie e Nettie se separam. É basicamente a partir dessa separação final que a história começa.

    O tempo é fundamental na narrativa de "A cor púrpura", porque é a representação de Deus. A medida que os anos passam e todos envelhecem, há o primeiro ponto de mudança de Celie. Harpo, filho mais velho de Albert, casa-se com Sofia. Diferente de todas os lares que Celie conheceu, a família de Harpo e Sofia é matriarcal, dada a força fulgurante da esposa. Reclamando dessa circunstância, Celie recomenda a Harpo a única opção que ela conhece: que ele bata em Sofia, subjugando-a como ela pensa que todas as mulheres devem ser. A reação de Sofia ao descobrir isso é a primeira sinalização à Celie de que há alguma oportunidade do mundo ser diferente do que ela pensa ser.
  
 Em seguida, há a chegada de Shug Avery (na foto, Margaret Avery no filme) à fazenda de seu antigo amante Albert. Ele obriga sua esposa a cuidar da amante que está gravemente doente. E, embora a relação entre ambas comece muito mal, Shug vai percebendo aos poucos os valores de Celie que a própria nem consegue enxergar. E o público descobre que Celie é símbolo de resiliência e que está aí a sua força e também a sua beleza. Shug descobre as agressões constantes que Celie recebe de Albert, mas, pior do que isso, que ela, aos poucos, está perdendo sua fé em Deus. Isso se dá porque, anos depois da separação de Nettie, Celie nunca recebera uma carta dela. É a "madalena" Shug quem vai fazer Celie resgatar a sua fé em Deus e promover a grande reviravolta na história da protagonista.

    Em planos inferiores, Sofia, Shug e Albert também vão sofrer curvas narrativas assim como personagens ainda menores como a Gralha, Harpo, o pai de Celie e o pai de Albert. E é nesse envelhecimento não só das pessoas, mas das relações estabelecidas entre os personagens, mas também entre cada um consigo mesmo e com suas histórias, que surge o valor da juventude. Quando Celie diz que não se sente velha, mas, ao contrário, talvez nunca tenha se sentido tão jovem, a frase significa o ciclo da vida, a roda da fortuna, a natureza em que plantas, montanhas, animais e seres humanos se irmanam enquanto criações e manifestações de Deus.

    Desde as sabedorias mais antigas, a cor púrpura está relacionada ao precioso, ao raro, ao misterioso. É a cor de Júpiter, o pai dos deuses, e também do chacra mental, da magia, da conexão com o superior. Com o advento do monoteísmo, passou a ser símbolo de riqueza, de benção divina, devido à sua raridade (Ver o Evanvelho de Lucas 16,19). No cristianismo, púrpura é a cor do sacrifício. Quem for à missa, nos quarenta dias que antecedem o natal ou a páscoa, verá o padre com uma estola cor de púrpura, representando o período de preparação interior, de meditação, de reflexão, de oportunidade de transformação para algo que, em breve, chegará numa explosão de alegria, que é o nascimento de Cristo ou a sua ressurreição.


A ótima montagem brasileira dirigida por Tadeu Aguiar

    Eduardo Bakr, Norma Thiré e Tadeu Aguiar seguiram basicamente a mesma receita que a Broadway no que diz respeito à escolha do elenco. Wladimir Pinheiro (que substitiu Sérgio Menezes) (Mister Albert), Jorge Maya (os pais de Celie e de Albert) e Analu Pimenta (Gralha) (havia também Lilia Valeska no papel de Nettie) são os únicos nomes mais conhecidos no elenco orinalmente composto por 18 atores. Parece que os objetivos foram também os mesmos: abrir espaço para rostos pretos desconhecidos em uma classe essencialmente composta por intérpretes brancos. No entanto, diferente das montagens americanas, a brasileira teve uma ficha técnica bastante conhecida em todos os seus aspectos.

   

 Nas premiações, o resultado brasileiro foi mais positivo. No 14o Prêmio APTR - Associação de Produtores Culturais do Rio de Janeiro, "A cor púrpura" ganhou 11 indicações, levando para casa 4 troféus: Melhor Direção de Movimento para Sueli Guerra, Melhor Ator Coadjuvante para Alan Rocha, Melhor Espetáculo e Melhor Produção. No 32o Prêmio Shell, foram duas indicações, mas prêmio apenas para Melhor Iluminação para Rogério Witgen. No 7o Prêmio Cesgranrio foram 7 indicações e dois troféus: para Iluminação e para Letícia Soares (na foto com crédito de Bob Sousa) como Melhor Atriz em Teatro Musical. Soares também venceu o mesmo troféu no Prêmio Bibi Ferreira, em que o espetáculo ficou com 8 indicações. A peça também foi indicada ao Prêmio APCA - Associação Paulista de Críticos de Arte de Melhor Espetáculo, entre outras premiações menos importantes.

    Trata-se de uma produção realmente vigorosa. O cenário de Natália Lana remete a uma estrutura de madeira ora bem requintada, mas ora selvagem que circula na velocidade em que o tempo gira em nossas vidas, sugerindo essa ambivalência entre a força da natureza e o raciocínio humano. Ney Madeira e Dani Vidal, na criação dos figurinos, valorizam o algodão em uma ótica realista ruralista e conservadora que conversa bastante bem com os outros elementos, ressaltando sua própria beleza e assim contribuindo para o mérito do todo. O desenho de luz de Rogério Witgen, fazendo vibrar o ciclorama com variações de púrpura que vão desde o branco até o índigo, exploram o olhar superior que vem do alto mas que se perde no infinito através dos homens e da grande estrutura cenográfica.

    A direção musical de Tony Lucchesi e a coreografia de Sueli Guerra vencem desafios com galhardia. "A cor púrpura" não é um espetáculo do repertório tradicional e, assim, não tem canções conhecidas do público. Além disso, vale dizer que ambos criadores tiveram em mãos uma peça que sempre sofrerá o risco de parecer religiosa demais, conservadora demais, lavanda demais. Talvez em vários momentos, ambos tenham perdido oportunidades de explorar um pouco mais a sensualidade que há em baixíssimo nível nessa partitura. No entanto, não se pode dizer com certeza que não houve tentativas, talvez por méritos deles, talvez por méritos da direção, talvez por mérito dos atores. O fato é que há, sim, momentos mais cômicos, ou mais sensuais, ou mais vigorosos que impedem a peça de afundar no mar de melancolia que Alice Walker criou (e quem ler o livro descobrirá isso). A música que dá título ao espetáculo, com letra de Artur Xexéu, fica na cabeça para sempre, marcando a potência dessa versão.




    Nesse sentido, a direção de Tadeu Aguiar, equilibrando-se perigosamente numa corda bamba que perigosamente pode-lo-ia fazer cair no excesso de sentimentalismo ou de fanatismo religioso, tem o brilhante mérito de emocionar pela delicadeza, de levar à oração sem o jugo da culpa, promover reflexão e divertimento sem cair nem na erudição nem na fanfarronice. É uma direção na medida que merece louvores por ter manipulado elementos tão tentadores sem cair em seus perigos.

As várias cores das interpretações

    "A cor púrpura" não é excelente por causa das interpretações e é claro que é preciso considerar nisso o contexto em que vivemos. Essa crítica se refere a uma apresentação em que três atores não estavam presentes por estarem diagnosticados com Covid-19: Claudia Noemi, Leandro Vieira e Nadjane Pierre. É claro que eles fizeram falta ao melhor sucesso do todo. Além disso, considera-se o processo pelo qual a produção que passou pela pandemia em ensaios irregulares, em sessões canceladas, em falta de rotina, em constante instabilidade. Nesse sentido, há que se reconhecer as muitas vitórias muito mais do que as pequenas derrotas. No entanto, esse site tem o histórico de refletir sobre os produtos e não sobre os processos, ou seja, não é de hábito aqui considerar como a obra chegou até onde esteve na sessão em questão, mas como ela estava aos olhos da análise na hora da apresentação.

    Os três pilares essenciais de "A cor púrpura" apresentam uma intepretação bidimensional, chapada, sem profundidade. Letícia Soares (Celie), Flávia Santana (Shug Avery) e Erika Affonso (Sofia) parecem depender exclusivamente do texto ou do figurino para se transformarem, pois, em seus corpos, nada se modifica ao longo da peça. As expressões faciais são as mesmas, os tons de fala são iguais, o gestual é invariável. É claro que o próprio texto obriga as intérpretes a se modificar, sobretudo no que diz respeito aos altos e baixos de Shug e à derrocada de Sofia. Mas esse mérito é do texto e pouco se reconhece a contribuição das atrizes nisso sobretudo quando se tem à disposição do olhar as demais interpretações do elenco em concorrência. Letícia Soares, em especial, apesar de cantar com uma exuberante potência e vibrante beleza, tem péssima dicção de maneira que, da quarta fila, não se entendem muitas palavras que ela diz. Perdem-se as consoantes, esvaem-se as potencialidades de variação tonal, perde-se o ritmo.

    Por outro lado, vemos vários intérpretes procurando formas de contribuir com o texto, de melhorá-lo, de tirá-lo do papel, de dar-lhe corpo, forma, personalidade. E, nesse sentido, é impossível não citar Ester Freitas (Nettie), Suzana Ribeiro (Jarene, uma das fofoqueiras), Analu Pimenta (Gralha) e principalmente Alan Rocha (Harpo). Freitas tem, diante de si, um desafio diferente dos demais citados, pois sua personagem é muito menor em termos de liberdade de criação. É uma figura que permanece imanente, isto é, na memória da audiência e de Celie. No entanto, Freitas soube criar e defender um padrão forte o bastante que se segurasse até o final quando a personagem reaparece. Já Santana, Pimenta e Rocha dão um show de exploração de potencialidades. Vêem-se neles o resultado de uma profícua pesquisa no amplo roll de possibilidade expressivas e na escolha consciente daquela mais adequada para cada momento. Quando estão em cena, não há cenário, não há figurino, não há luz que chame mais a atenção do que eles. E o que é o teatro se não o ator?

    

Por fim, para além de tudo no terreno das intepretações, vale aplaudir de pé o excelente trabalho de Wladimir Pinheiro (Mister Albert), um dos melhores atores do país. Cantor de primeiríssima grandeza, ele exibe, ao longo da peça, vastíssima variedade de cores e formas na composição de seu personagem, o antagonista. Outro poderia ter ficado satisfeito na cômoda posição de vilão e portanto sub-protagonista, mas Pinheiro deu-lhe níveis mais profundos, curvas evolutivas, humanidade. Em todas as cenas, o vemos fugindo dos lugares comuns e fáceis e investindo com força e assertividade desde os mínimos detalhes do olhar até os mais largos gestos de fúria. Ele brilha unânime nessa enorme produção cheia de outros méritos.

Um belo espetáculo

    O livro, o filme e a peça "A cor púrpura" são obras paralelas que encontraram, quarenta anos depois de seu primeiro aparecimento, lugar adequado para sua fruição. Vivemos um tempo de debates sobre preconceito racial, preconceito de gênero, preconceito religioso. Não se pode, porém, empobrecer as três obras baseando-se apenas na importante militância em prol de um mundo mais justo, fraterno e igualitário. O espetáculo "A cor púrpura" é ótimo não por um ser panfleto, afirmar isso seria uma agressão ao conjunto de criadores e realizadores envolvidos com a produção. O aplauso de pé, as lágrimas, a reflexão que a peça lega a quem sai do teatro são devidos aos seus muitos méritos estéticos. Se obviamente devemos ter o compromisso de valorizá-lo como bandeira potente na luta por uma sociedade melhor, há que se ter mais ainda o impulso natural de saudá-lo pela magnitude dos temas que ele aborda, mas sobretudo pela forma artística como essas pautas são trazidas à baila. Parabéns!!




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Ficha Técnica

Texto: Marsha Norman

Músicas: Brenda Russell, Allee Willis e Stephen Bray

Versão Brasileira: Artur Xexéo

Direção Geral: Tadeu Aguiar

Direção Musical: Tony Lucchesi

Elenco: Letícia Soares, Wladimir Pinheiro, Flávia Santana, Jorge Maia, Alan Rocha, Ester Freitas, Erika Affonso, Analu Pimenta, Suzana Santana, Cláudia Noemi, Hannah Lima, Caio Giovani, Renato Caetano, Thór Jr, Gabriel Vicente, Leandro Vieira, Nadjane Rocha, Léo Araújo e Merícia Cassiano.

Assistência de direção: Flávia Rinaldi

Produção de elenco: Marcela Altberg

Cenário: Natália Lana

Figurino: Ney Madeira e Dani Vidal

Desenho de luz: Rogério Wiltgen

Desenho de som: Gabriel D’Angelo

Coreografia: Sueli Guerra

Assistência de cenografia: Gisele Batalha

Assistência de Coreografia: Olívia Vivone

Assistência de direção musical: Thalyson Rodrigues

Assessoria de imprensa: Morente Forte

Mídias sociais: Rafael Nogueira

Designer gráfico: Alexandre Furtado

Produção executiva: Edgard Jordão

Coordenação de produção: Norma Thiré

Produção Geral: Eduardo Bakr

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Negra Palavra – Solano Trindade (RJ)

Foto: divulgação
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O ator Pedro Américo na divulgação do espetáculo

Leandro Fazolla*, do "Cadernos Cênicos", escreve a crítica de "Negra Palavra – Solano Trindade" - espetáculo do 13o Festival Niteroí Em Cena

Ressignificação foi uma das palavras de ordem no ano de 2020. Com todos os teatros fechados, artistas tiveram que se ressignificar, buscar alternativas, se reinventar. Passados alguns meses do isolamento por conta do novo corona vírus, grupos de teatro se aventuraram em novas pesquisas pelo ambiente virtual, no que se convencionou chamar de “teatro online”. Diversas foram as experimentações nesse sentido, que geraram ótimas propostas artísticas como é o caso de “12 pessoas com raiva”, do Pandêmica Coletivo Temporário de Teatro, “O Filho do Presidente”, do Teatro Caminho, e até mesmo “Éramos em Bando”, filme investigativo do Grupo Galpão que oscila na fronteira entre teatro e cinema. Entretanto, não foi apenas de novidades que se fez essa nova safra da produção teatral. Uma série de artistas começou a disponibilizar os registros em vídeo de espetáculos anteriores ao isolamento social. Para além destes, houve ainda aqueles que se aventuraram em adaptar espetáculos originalmente pensados para o “teatro presencial” (termo que fomos obrigados a cunhar para nos referir, nestes novos tempos, ao que costumava ser apenas “teatro”). Este é o caso da versão online de “Negra Palavra – Solano Trindade”, parceria do Coletivo Preto e da Companhia de Teatro Íntimo, apresentada no Festival Niterói em Cena. 

Leandro Fazolla

Mais do que uma adaptação, o que temos é uma nova produção, ressignificada para os tempos de pandemia, mas ainda ancorada na mesma premissa original: apresentar a potência da obra do poeta Solano Trindade. Com direção de Orlando Caldeira e Renato Farias e um elenco composto por Adriano Torres, André Américo, Breno Ferreira, Drayson Menezzes, Eudes Veloso, Jorge Oliveira, Lucas Sampaio, Orlando Caldeira, Rodrigo Átila e Thiago Hypolito, separados nas já habituais janelinhas da plataforma Zoom, a obra se divide entre poesia e militância (ou será que fazer poesia no Brasil atual já é, por si só, militar?), algo completamente pertinente em um ano em que, além de uma pandemia, tivemos que nos confrontar com diversos ataques racistas vindos das mais variadas esferas, da truculência policial aos estádios de futebol. 

Iniciando o espetáculo com uma filmagem de Conceição Evaristo declamando uma poesia na temporada presencial no Teatro Poeira, em janeiro deste ano, o espetáculo já começa mostrando o que pretende: mais do que se aprofundar na biografia de Solano Trindade, o trabalho faz uma necessária pesquisa e um resgate de sua obra para o grande público, assim como um tributo ao(s) poeta(s) e a todo o povo negro. Há primordialmente uma emocionante reverência à ancestralidade, algo conduzido não apenas pela interpretação do elenco, mas por suas próprias vivências, o que fica evidente na emoção e orgulho em volta de Evaristo, e em outros momentos marcantes do espetáculo, como quando os olhos do ator André Américo brilham ao falar do sol da África, ou quando Thiago Hipólito brinca com as intenções e apresenta diferentes interpretações para um poema de Solano que menciona características físicas dos corpos pretos, exaltando-as. Neste sentido de exaltação e celebração, vale ressaltar, ainda, as homenagens que o espetáculo faz à memória dos atores Eliton (Tom) Torres, assassinado no ano de 2017 no Rio de Janeiro; e Chadwick Boseman, que imortalizou o super-herói Pantera Negra nos cinemas e morreu de câncer este ano. A estes tributos, soma-se outro, feito pelo próprio Niterói em Cena, a Erika Ferreira, artista da cidade sede do evento vitimada pela Covid-19 no início deste ano.

De volta à encenação, as necessidades técnicas do novo ambiente virtual acabam por tirar do espetáculo alguns dos grandes destaques da versão presencial, como a belíssima direção de movimento de Orlando Caldeira, com uma assertiva ocupação do espaço cênico; ou então a impressionante direção musical de André Muato e toda sua pesquisa em percussão corporal; porém, não seria justo tratar de uma nova obra – como, de fato, esta pesquisa se tornou – tendo como parâmetro a comparação com o que a mesma foi em outra “plataforma”. Pelo contrário, há que se ater aos méritos proporcionados pelo novo ambiente, como as possibilidades de jogos de câmera que trazem novos pontos de vista e, acima de tudo, a ênfase que a nova versão dá ao próprio título do espetáculo: no ambiente virtual, com os atores vestindo roupas do dia a dia e sem o uso de muitos artifícios para além de si mesmos, as negras palavras de Solano parecem reverberar ainda mais e se tornam mais do que nunca a grande protagonista da montagem. A força de sua poesia parece se amplificar quando o que temos é o contato próximo e direto (ainda que mediado via tela) com o elenco e sua profusão de olhos, bocas, narizes, mãos, peles, tudo ampliado pelo zoom (tanto a plataforma quanto o movimento de câmera). Vale ressaltar ainda o quanto a poesia de Solano ganha vida ao se colocar no cotidiano. Na intimidade dos lares, a obra do poeta sai pulsante dos lábios dos atores para deslizar por entre telas, escorrer por paredes de tijolos, alojar-se nas frestas dos azulejos e preencher cada canto das casas, tanto as do elenco, quanto as do público. Elenco e público que, inclusive, parecem conectados para além do que a velocidade da internet permite supor. 

O uso das próprias casas dos atores também traz novas significações e mensagens nas entrelinhas. Nenhuma escolha é fruto do acaso e isso fica claro quando Drayson Menezzes dança no mesmo cômodo onde um quadro na parede apresenta uma versão negra da Monalisa. Interpretada pela atriz Mariana Nunes, a imagem, concebida para o projeto Identidade (idealizado por Orlando Caldeira e Noemia Oliveira) parece contemplar a performance do ator com o mesmo olhar de orgulho com o qual, em outro momento, o elenco observara Conceição Evaristo. Tão enigmático quanto sua contraparte “original”, este novo sorriso parece emitir a mensagem de que não há mais tempo e nem espaço para velhos cânones europeus. No Brasil de 2020, a Monalisa é crespa, a cena é preta, o poeta é Solano, e é tudo pra ontem!


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*Leandro Fazolla é Graduado em História da Arte, Mestre em Arte e Cultura Contemporânea, na linha de pesquisa de História, Teoria e Crítica de Arte e doutorando em Artes Cênicas. Ele assina o Canal Cadernos Cênicos no You Tube.

Ficha Técnica
Direção de arte: Raphael Elias
Assistência de arte e figurino: Júlia Marques
Elenco: Adriano Torres, André Américo, Breno Ferreira, Drayson Menezzes, Eudes Veloso, Jorge Oliveira, Lucas Sampaio, Orlando Caldeira, Rodrigo Átila e Thiago Hypolito
Direção geral: Orlando Caldeira e Renato Farias
Direção musical: André Muato
Direção de movimento: Orlando Caldeira
Direção de atores: Drayson Menezzes
Autor: POESIAS - Solano Trindade | ROTEIRO - Renato Farias
Classificação Indicativa: 12 anos​
Duração: 30 min
​Link: @negrapalavrasolanotrindade

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

12 pessoas com raiva (RJ)

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Elenco em cena



Leandro Fazolla*, do "Cadernos Cênicos", escreve a crítica de "12 pessoas com raiva", espetáculo que brilhou no 13o Festival Niterói em Cena

Leandro Fazolla
Repetida à exaustão, “polarização” continua sendo uma das palavras mais utilizadas para definir o Brasil dos últimos anos. Em um período em que a política tomou o protagonismo da vida em sociedade, temos há algum tempo um país partido, que parece ter se tornado ainda mais radical durante a pandemia do novo corona vírus, quando a população se divide entre os pró-vacina e aqueles que parecem subverter qualquer racionalidade ao achar que não se vacinar é a melhor opção. Essa divisão tão acentuada parece ser, de cara, o que mais torna o espetáculo online “12 pessoas com raiva”, da Pandêmica Coletivo Temporário de Teatro, uma experiência tão atual. 

O espetáculo é a mais recente adaptação brasileira para “Twelve Angry Men”, de Reginald Rose, originalmente escrito nos Estados Unidos dos anos 1950 e já adaptado para o cinema e para o teatro – tendo recebido no Brasil o título “Doze homens e uma sentença”. A cargo de Juracy de Oliveira, também diretor do espetáculo, esta adaptação do Pandêmica Coletivo apresentada na 13ª edição do Niterói em Cena amplia suas possibilidades ao substituir os doze homens do título original por homens e mulheres. A isso, soma-se o fato de o coletivo ter sido formado de forma interestadual durante o confinamento, o que traz ainda uma multiplicidade de cores de pele e sotaques que amplifica as possibilidades dramatúrgicas do espetáculo e, ainda, as possibilidades que não são dadas somente pelo texto, mas podem ser apreendidas nas entrelinhas a partir desta multiplicidade em cena. Além de utilizar esta diversidade a seu favor, outro dos muitos méritos desta adaptação está em assumir completamente o ambiente virtual e a plataforma Zoom como elemento constituinte de seu enredo

Na trama, por conta da pandemia, doze jurados se encontram para uma reunião online onde terão que selar o destino de um jovem acusado de assassinar o próprio pai. A única condição é que o veredito tem que ser unânime e o réu só pode ser considerado culpado se não houver qualquer “dúvida razoável” sobre sua inocência. Em uma votação inicial, apenas uma jurada põe em dúvida a culpa do réu. A partir daí, começa um intenso debate, em um texto praticamente investigativo, que vai resgatando (e apresentando ao espectador, o que torna muitos dos diálogos bastante expositivos) os detalhes do crime e do julgamento para colocar em xeque a confiabilidade das provas e dos testemunhos. À medida que o espectador vai assistindo ao espetáculo, já parece claro o rumo que as coisas vão tomar. Entretanto, o que está em jogo vai muito além da necessidade de surpresas ou da previsibilidade do desfecho. Enquanto avança, o espetáculo vai suscitando uma série de discussões que não necessariamente se esgotam na própria peça (o que ficou ainda mais evidente no acalorado debate que se seguiu à apresentação, junto ao público presente), e que vão trazendo um ar de atualidade latente a ela, a despeito das quase sete décadas que separam a versão atual da encenação original. Racismo, etarismo, preconceito social, machismo, tudo vai sendo disposto sobre a mesa, em meio a provas, fatos e opiniões, à medida que os “tipos” presentes no júri vão se revelando a partir de suas diferentes perspectivas sobre o caso. 

A direção de Juracy acerta em cheio ao perceber que o que tem em mãos é, sobretudo, um ótimo texto e um grupo forte de atores, e não cede à tentação de se debruçar sobre invencionices tecnológicas desnecessárias. As possibilidades que o ambiente virtual oferece até são utilizadas vez ou outra na encenação, como um compartilhamento de imagem, pontuações mínimas por trilha sonora, mas nada que distraia o espectador ao ponto de ele esquecer que se trata de mais uma das inúmeras reuniões virtuais que ocorrem durante o isolamento social. Nesse sentido, até mesmo “tempos mortos” como a espera inicial pela entrada de todos os jurados contribuem para trazer o realismo da encenação. Não há jogo de câmeras, inserções externas nem nada que nos tire do contato direto com cada um dos personagens, presentes o tempo todo a partir das próprias câmeras frontais de seus aparelhos. 

Contando com um extenso elenco (composto por Enio Cavalcante, Gabrielly Arcas, Gilson de Barros, Giovanna Araújo, José Henrique Ligabue, Leandro Vieira, Leonardo Netto, Mariana Queiroz, Maurício Lima, Múcia Teixeira, Nely Coelho, Ralph Duccini e Tatiana Henrique), é natural que alguns atores tenham mais espaço na trama do que outros. Mas, como um todo, o grupo se mostra pronto não apenas para defender seus personagens como, ainda, para se desvencilhar das armadilhas que o ambiente tecnológico pode trazer, desde um rápido “travamento” de câmera até mesmo a uma “queda” que pode deixar um ator fora de cena por alguns minutos, obrigando o restante do grupo a avançar com a dramaturgia mesmo na ausência de um dos personagens. E essas imprevisibilidades estão tão completamente assumidas pelo espetáculo e dominadas pelo elenco que, por vezes, o público pode ficar em dúvida se fazem parte da encenação ou de fato estão acontecendo no “mundo real” fora da trama.

Após meses de constante temporada virtual, é possível perceber um elenco bastante à vontade para inserir “cacos” e deixar o jogo acontecer. Jogo, inclusive, que se reinventa a partir da entrada do ator Leonardo Netto em substituição a Gilson de Barros na pele do “Número 4”. Se Gilson carregava nas tintas do personagem que, até o último segundo, considera culpado o réu em questão, tornando esse cabo de guerra mais acalorado e tenso, Netto oferece ao mesmo determinadas sutilezas que parecem enfatizar o fato de que, para o jurado em questão, o julgamento parece muito mais um acerto de contas com seu próprio passado do que, necessariamente, uma abordagem sobre a vida do réu em si. Duas nuances distintas que aproveitam bem o ótimo personagem e que podem dar (ao espectador que tiver a oportunidade de assistir aos dois em cena) novas camadas ao personagem e até mesmo ao próprio espetáculo. Principalmente pelas oportunidades que recebem do texto, chamam atenção no elenco, também, Tatiana Henrique, que assume a responsabilidade de conduzir a trama a partir dos questionamentos de sua personagem, única a, a princípio, duvidar da culpa do réu; Múcia Teixeira, um contraponto emocional dentro daquele universo em que sentimentos parecem emergir quase que exclusivamente a partir da raiva do título; e José Henrique Ligábue que muitas vezes consegue servir de alívio cômico com um dos personagens mais interessantes do espetáculo. 

Num espetáculo que trata sobretudo de divisão, o Pandêmica Coletivo se mostra assertivo ao trazer para a cena o oposto, a reunião de um Brasil de dimensões continentais, com diversas diferenças colocadas lado a lado em cena e que tornam possível o delicado encontro final, que nos lembra que, por trás daqueles profissionais chamados por números, há pessoas, nomes e histórias. E, por mais que a pandemia em que vivemos seja usada apenas como pano de fundo e não necessariamente tenha impacto direto na trama (para além de seu contexto de reunião online e uma ou outra inserção de texto), difícil não pensar, em uma época em que números são atualizados diariamente no noticiário, que pessoas, nomes e histórias também estão por trás dos quase 190 mil mortos negligenciados por uma parcela expressiva da população.





*Leandro Fazolla é Graduado em História da Arte, Mestre em Arte e Cultura Contemporânea, na linha de pesquisa de História, Teoria e Crítica de Arte e doutorando em Artes Cênicas. Ele assina o Canal Cadernos Cênicos no You Tube.

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Ficha Técnica
Livremente inspirado em “12 Angry Men” de Reginald Rose

Idealização, Adaptação e Direção Geral: Juracy de Oliveira
Direção de Arte e Figurino: Luiza Fardin
Elenco: Enio Cavalcante, Gabrielly Arcas, Gilson de Barros, Giovanna Araújo, José Henrique Ligabue, Leandro Vieira, Mariana Queiroz, Maurício Lima, Múcia Teixeira, Nely Coelho, Ralph Duccini e Tatiana Henrique.
Direção: Juracy de Oliveira
Autor: Livremente inspirado em "12 Angry Men" de Reginald Rose
Classificação Indicativa: 14 anos
Duração: 75 min
​Link:@pandemicacoletivo