domingo, 25 de outubro de 2020

Kamikaze (RJ)

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Eduardo Parreira, Tatiane Meyer e Mário Terra em bela cena musical
Eduardo Parreira, Tatiane Meyer e Mário Terra em bela cena musical


Carolina Alfradique e Pedro Casarin brilham em excelentes interpretações 

O ótimo “Kamikaze” é boa oportunidade ao público de conferir um grupo de artistas investigando a linguagem da ferramenta Zoom como conexão em tempos de pandemia. O espetáculo, que estará em cartaz durante todo esse mês de outubro, é uma adaptação de uma peça teatral produzida em 2012 e que agora se atualiza como fruto das modificações atuais. Tanto aquela como esta são versões escritas e dirigidas por Oscar Saraiva, inteligente e premiado encenador cujo currículo é recheado de trabalhos sempre elogiados por se preocupar com o presente. O elenco é composto por Ana Julia Hammer, Eduardo Parreira, Mário Terra, Kiko Duarte, Tatyane Meyer e Tiago Ribeiro em bons trabalhos, mas também por Pedro Casarin e Carolina Alfradique em brilhantíssimas atuações. Em destaque muito positivo, estão as lindas canções originais interpretadas ao vivo, essas assinadas por Saraiva, mas também por Pedro Poema, Mario Terra e Eduardo Parreira. Vale a pena assistir à montagem ainda pela reflexão social que ele evoca: muitas vezes, sabemos que vamos nos dar mal, mas, mesmo assim, caminhamos como kamikazes ao precipício. 

Méritos no roteiro de Oscar Saraiva 
Com muita cordialidade, carinho e atenção, o público é acolhido dentro da sala do Zoom pelo elenco. Acessa-se a esse ambiente virtual a partir de um link disponibilizado após a aquisição do ingresso. A tensão causada pela novidade da ferramenta é diminuída consideravelmente pelo modo como, em especial, Ana Julia Hammer atende as pessoas em suas dúvidas. Um vídeo (Kiko Duarte e Zeca Richa) bastante didático é apresentado, colaborando com o processo positivamente. Após esse momento de abertura, ouve-se a música de abertura enquanto assiste-se aos atores terminando de se vestir. É quando somos introduzidos ao espetáculo após um diálogo inicial que prenuncia a boa experiência estética que há de vir. 

O texto de Oscar Saraiva revela cuidado delicado com o uso das palavras na construção dos diálogos. Embora haja algum investimento mínimo na construção do real, é perceptível que a poesia tem privilégio em “Kamikaze”. O melhor dessa observação é sentir que a existência – mesmo que em ambientes puramente virtuais – é recheada de possíveis reflexões estéticas (e que elas são boas!). É desse modo que, já no início da peça, o público é levado pelo texto ao seu alvo. Enlameando-se na busca por compreender a maneira como os nove personagens se relacionam entre si, de repente, percebe-se que a narrativa vira sobre si própria. O sentido da palavra “kamikaze” vai ganhando cores diferentes, ela vai se mostrando como metáforas diversas para cada figura até explodir e ser símbolo do todo. E esse todo não inclui apenas as pessoas da história, umas diante das outras, mas cada um consigo próprio e os atores em relação a elas e a nós. Inicialmente, um kamikaze é alguém que perde a sua vida em prol de uma causa coletiva, homens-bomba que explodem pessoas e lugares, mas antes a si próprios. A Oscar Saraiva, nessa dramaturgia que vira roteiro, parece interessar a pulsão: o tempo irrecuperável entre o vestir-se de explosivos até o acionamento da explosão. Há aí um fino fio de esperança que se une a medo e a coragem que “Kamikaze” explora. 

Há que se destacar também o ritmo que a narrativa ganhou nessa linguagem audiovisual sobre a qual o Zoom se apoia. O roteiro tem cenas rápidas, os quadros se unem entre si não só na articulação da tela, mas também nos diálogos. O ritmo – ora acelerado, ora lento – vai sendo força e sustentação positivas à narrativa. O final é similar a um abismo ao qual se atiram não só os personagens, mas também os atores. Para o roteiro, talvez seja a esse abismo que concomitantemente nós, o público, também estamos nos atirando social-politicamente. 

Desafios vencidos e glórias conquistadas nas interpretações 
Quanto às interpretações, é possível observar, nesse nível, a hierarquização da dramaturgia/roteirização. Dentro das possibilidades diferentes que cada ator teve no panorama narrativo, consegue-se identificar que todos apresentaram bons trabalhos. Ocorre que “Kamikaze”, nessa versão, gira em torno de Valentina (Carolina Alfradique) e do que aconteceu com ela. Sem conseguir lidar com o fim de seu relacionamento com Ivan (Tiago Ribeiro), ela acaba atropelando uma pessoa. Então, na história, tudo o que se organiza é em torno desse acontecimento. Desse modo, as relações ganham e perdem importâncias no texto e é, a partir delas, que os méritos das interpretações precisam ser avaliados e parabenizados. 

Eduardo Parreira (Felipe, irmão de Valentina), Mário Terra (parceiro de Felipe), Kiko Duarte (Juan, namorado de Sara) e Tiago Ribeiro (Ivan, o ex-namorado de Valentina) apresentam bons trabalhos dentro das possibilidades sem qualquer um ter grande destaque. Ana Julia Hammer (Alice, a bolsonarista) tem melhores possibilidades por interpretar uma figura mais interessante, mas que sofre o isolamento dramático de uma personagem que não tem relação íntima com qualquer um dos demais. Mesmo assim, Hammer consegue explorar bem suas ferramentas dando destaque à caracterização. Tatyane Meyer (Sara, namorada de Juan, e Atriz) tem dois desafios. Primeiro, ela interpreta a personagem mais lírica de todo o contexto, e brilha nessa conquista. Depois, ela dá vida a uma figura discursiva praticamente sem força, mas, com talento, ela consegue dar-lhe alguma graça. 

No grupo de oito personagens coadjuvantes da peça, o único que realmente teve uma defesa meritosa é o de Neco. Interpretado por Pedro Casarin, o personagem é um misto de político conservador e de apresentador de programa sensacionalista que cai de paraquedas na narrativa com longuíssimo monólogo. Em um trabalho delirante, a entrada de Casarin rejuvenesce o ritmo da narrativa, tirando da estabilidade todos os lugares organizados até então. Desde pequenos impulsos no olhar até o furacão de sua voz, o intérprete derruba todos os obstáculos de uma simples caricatura e apresenta uma figura tão sedutora quanto terrível. Sem dúvida, um excelente trabalho. 

Carolina Alfradique (na foto ao lado), com sua Valentina, apresenta uma das melhores interpretações desse teatro via Zoom de que se tem notícia em 2020. Em todas as cenas, do início ao fim de “Kamikaze”, ela traz uma elogiável exploração de diferentes níveis expressivos, aproveitando bem cada segundo de possibilidade em tempos ideais, em quadros poderosos, em tons interessantes. Em tudo, há vigor, há pujança, há maestria em seu trabalho magnífico cheio de complexidade. É uma maravilha assistir a ela em cena. 

Belas canções 
Além dos aspectos positivos já destacados no texto, na direção e nas interpretações, vale ainda, ao final, tratar da beleza da trilha sonora originalmente composta e interpretada ao vivo pelos atores. “Kamikaze”, com canções de Eduardo Parreira, de Mário Terra e de Oscar Saraiva, com certeza, tem playlist que sobreviverá à peça. As letras são poemas potentes, os acordes exploram a poesia, os traços vocais concordam na construção do lirismo – tudo potencializa a sensibilidade com que cada elemento dessa narrativa se estabelece. Os momentos musicais garantem a humanidade da teia discursiva apresentada, sempre chamando a atenção para o universo profundo interior que cada homem tem consigo mesmo e com seus semelhantes ainda que sejamos um entre tantas milhões de espécies em um entre vários planetas e galáxias, como diz o texto. 

Eis um lindo trabalho de 2020! Aplausos! 


Ficha técnica: 

Texto e Direção: Oscar Saraiva 

Elenco: Ana Julia Hammer (Alice), Carolina Alfradique (Valentina), Eduardo Parreira (Felipe), Mário Terra (Hermes), Kiko Duarte (Juan), Pedro Casarin (Neco), Tatyane Meyer (Sara e Atriz) e Tiago Ribeiro (Ivan). 

Músicas: Eduardo Parreira, Mário Terra e Oscar Saraiva. 
Músicos: Eduardo Parreira e Mário Terra 
Mídias Digitais: Tatyane Meyer e Tiago Ribeiro 
Fotos: Pedro Casarin 
Edição de vídeos: Kiko Duarte 
Design Gráfico: Zeca Richa 
Produção: Coletiva 
Direção de Arte: Tiago Ribeiro 
Direção de Produção: Kiko Duarte 
Assessoria de Imprensa: Cristiana Lobo 

Serviço: 
Plataforma: Zoom 
Dias: 6ª e Sábados 
Horário: 21h 
Temporada: de 02 a 31 de outubro 
Ingressos: Sympla 
@kamikazeonline

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